segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Não há Vida.


Não há vida além daquela porta. Ela é negra como a noite, morta como a história, porém viva e viva, plena de mistérios. Na história somente vi fatos, mortes e novas mortes que significaram muito e nada ao mesmo tempo. Perfaço minha história e vejo que a cada segundo que se passa ela morrerá, um pedaço de mim ficará para trás e não beberei mais daquele sabor, que foi amargo ou doce, delicioso ou intragável. Foi alguma coisa e o próprio verbo define seu sentido no presente. Daqui pela frente outras ocorrências se darão, outra história será construída, e esta mesma história ficará para trás como toda história com suas tristezas e alegrias. Não disponho de controle sobre ela, como nunca tive sobre a que acontecerá, pelo menos assim concebo. No entanto acho que o controle poderá ser empregado, abrangente e destruidor. Por que controlar? O controle deve vir para saber o que virá, preparar-se, prevenir-se diante dos agentes nocentes. Contudo, preferia dançar, enebriar-me com o marasmo das ondas decisivas.

Sorrirei.


Tentarei agradar o Idiota. Deitar-me com a cabeça encostada no travesseiro e não perceber o tempo se esvair pelas areias que o tempo acaba por levar. Adormecer ante o clima abafado, quente e insuportável. Beijar minha testa com a palma da mão e amaldiçoar a região e o quarto por ser tão calorento. O suor escorre, molha todo o meu corpo. Ele só está servindo para ser molhado, encharcado pela água desocupada, aquela que em vez de lavar, suja, suja mais e mais, acumulando uma poça imunda, barrenta, provedora de doenças. Enfermidades perenes. Então, estagno, fico deitado, letárgico ao sabor do som do ventilador, que não pára de girar de um lado para o outro, exercendo seu papel mecânico, sem sentido e com um sentido objetivo.Minhas pernas não se mexem, minha cabeça não gira como a do ventilador, parece que não tenho o mesmo fim insensível. Sou uma máquina quase em desuso, exerci minha função, função que nunca realmente exerci, uma produtiva, feraz diante dos acontecimentos ou feraz demais e incompreensível pela massa estúpida. Não sou mecânico, não sou fisicamente disponível, sou abstrato e real, sou metafísico, surreal. Prefiro o trabalho mental, embora, no momento, não exerça atividade alguma. Fico aqui deitado, um morto-quase-vivo. Um nada de pernas longas, mãos imóveis e cabeça mais imóvel ainda.

Apatia.


Eu já fui daqueles de sentir o corpo, em ver minha pele completa e instataneamente febricitante. Rememoro os dias em que os nervos trabalhavam, as terminações nervosas eram grandes e pomposas. Hoje estou magro e um pouco gordo, um obeso. Guardo lembranças de quando não comia e nem me via nas sendas da feira popular. Cadê aquele? Aquele que tinha calor, que despejava suor em busca do nada do nada, da verdade das sensações. Deve estar perdido em algum bordel da apatia, deitado com as putas sem sexo ou desfrutando do prazer dos corpos inúteis.