terça-feira, 4 de agosto de 2009

A Rosinha.


Peguei uma rosa com um pé, não sei de quem ele era. Não importava. Eu peguei. Os dedos do pé a enroscam, eu sou o proprietário. O sem escrúpulos Senhor da Rosa, vermelho e o verdugo semelha, eu. A vermelha é forte, vibrante, revela tudo o que se encontra em seu interior, eu a amo vemelha como ela é. Foi a primeira, então a primeira é inesquecível aos olhos de um amante insofrido e insofreável. A rosa continuará no pé. Não tem ato tão cruel quanto tirá-la do pé. Continue, minha Rosa Querida. Seu tempo é o agora, o meu tempo é o que foi. Sou o que foi, a Rosa no pé, sem tirá-la, a contê-la de forma abrupta, eu a detenho como Senhor que sou, que sou o que foi e continua a ser. Sou o senhor do vermelho, vermelho da rosa vermelha, pura e ensopada na pureza do pé, de um pé desconhecido e meu. Rosa minha e do pé, somos dois, somos sem casa, lar, fortaleza, somos fragéis, impotentes. Eu estou aqui, meu pé está em algures, sou sozinho e comigo mesmo, no momento você, Rosa Querida, me faz companhia, me abraça com seus espinhos e mostra-me o sangue vermelho como sua cor para provar-me que ainda continuo a bater as paredes cardíacas desgastadas... Estar aqui, a escrever, escrever os espinhos que me encravam a carne, em nenhum outro lugar, o meu lar.

Com começo e sem fim. Minha vida? A vida de alguém. Eu olhava o pôr-do-sol tentando sentir a emoção que antes eu sentia quando o via, acho que consegui sentir um pouco de pulso, de sentimentos pulsantes. Uma situação grotesca, estou frio. Sinto o pulsar de um coração gelado. Mas às vezes nem vejo, queria não sentir absolutamente nada. Sentir nada já é sentir, que eu sinta, sinta o nada, somente ele ou ela. É mais confortável sentir o nada. É mais difícil enfrentar a vastidão causticante do nada de uma pessoa do que enfrentar a dimensão destrutiva do verdadeiro nada material. O nada que mais sinto é o nada das pessoas, o vazio que elas carregam em seus corpos pequenos e precários me nauseia. Tenho vontade de estar longe delas, de senti-las distantes e com medo. De vê-las sucumbirem em torpeza sem nenhuma intervenção. Qual o caminho delas? É o caminho delas e assim será, eis a vida do inepto. Não precisam de mim para serem a matéria detestável que são. Ficarei aqui. Longe. Tive um começo e meu fim será unicamente no fim. Não chegarei ao fim mais cedo do que a carruagem do sopro de dor.