sábado, 26 de julho de 2008

A Carne de Minha Vida.



Quando o primeiro prego atravessou minha carne senti que a vida perdeu a entonação dada pela pueril esperança de não perceber a dor. O prego cruzou os tecidos. Aos poucos abriu caminho até chegar aos ossos. Meu sangue brotou como a água brota da terra, apta a fertilizar solos estéreis. Os impactos faziam de mim um ser frágil. Cai de joelhos não suportando a crueldade com que eram aplicadas as batidas do martelo. Meu algoz não parava a nenhum momento, a raiva nutria a crueldade de seus atos. Os calafrios corriam pelo meu corpo em relances intermináveis enquanto eu suplicava, chorava e lamentava minha sina miserável. Ali, cerrado entre a muralha de meu calabouço, não chegava nem a pensar, estava entregue à materialidade provocada pelo sofrimento. O prego incauto rasgava a carne com ferocidade. Meus músculos se misturavam com as partículas de ferro que se soltavam das laterais do objeto. O martelo batia, o prego perfurava. O prego perfurava, minhas energias deixavam-me, lutar não seria mais possível, deixei-me embalar ao som das batidas, ao bailar do meu sangue.

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