quarta-feira, 30 de julho de 2008

Aqui.


Lembro-me do meu enterro. Todos aqueles idiotas encenavam um choro falso. Meu corpo jazia no féretro. Sentia cada centímetro da pele apodrecer com uma velocidade nunca percebida. Eis uma novidade em minha história recente, pensei que estivesse mais podre quando fluía o sangue em pulsos e realmente eu estava absolutamente certo. A podridão era desigual. Um porco sem igual ou um aglomerado de lixo em um lixão esquecido em alguma periferia de uma cidade por aí.

sábado, 26 de julho de 2008



A Boca. Beije-me quando puder, sei que nunca poderás beijar-me. Inundar-te-ei com meu sangue apodrecido pelo refugo de sentimentos.

Saia deste corpo o Demônio que habita minhas carnes. Tire deste sangue o Demônio que habita meu cérebro. Saia desta alma o Demônio que assola os meus sonhos.

A Visão.




Eis a minha vida. Olhem! O gosto é adocicado e ocasiona torpor ou um certo furor naquele que a observa, então tome cuidado. Olhe, mas não sorva a essência dinâmica da imagem. Minha vitalidade não suporta espetáculo, prefere o aconchego de um bom sanatório. Os gritos doentios que explodem em seus ouvidos são apenas uma espontaneidade de sentimentos, tento não disfarçar a pequenez de ser um humano. Um humano abraçado pela treva, escuridão do canto de um manicômio apropinqüado, vizinho de meus genitores, na terra dos ditos normais, mendigos da concreta miserabilidade. O vermelho intenso revela a inexistência de intensidade que perfaz as estradas vitais das trilhas que me levaram a percorrer. Veja este vermelho-escuro, os pingos que se espalham pelas margens! Não! Não são unicamente uma cor refratada, porém também um ponto de conflito complexo às mentes de pérfido rebotalho.

A Carne de Minha Vida.



Quando o primeiro prego atravessou minha carne senti que a vida perdeu a entonação dada pela pueril esperança de não perceber a dor. O prego cruzou os tecidos. Aos poucos abriu caminho até chegar aos ossos. Meu sangue brotou como a água brota da terra, apta a fertilizar solos estéreis. Os impactos faziam de mim um ser frágil. Cai de joelhos não suportando a crueldade com que eram aplicadas as batidas do martelo. Meu algoz não parava a nenhum momento, a raiva nutria a crueldade de seus atos. Os calafrios corriam pelo meu corpo em relances intermináveis enquanto eu suplicava, chorava e lamentava minha sina miserável. Ali, cerrado entre a muralha de meu calabouço, não chegava nem a pensar, estava entregue à materialidade provocada pelo sofrimento. O prego incauto rasgava a carne com ferocidade. Meus músculos se misturavam com as partículas de ferro que se soltavam das laterais do objeto. O martelo batia, o prego perfurava. O prego perfurava, minhas energias deixavam-me, lutar não seria mais possível, deixei-me embalar ao som das batidas, ao bailar do meu sangue.

Agonia.


Minha respiração está devagar. Ouço cada sopro feito pelo pulmão já desgastado. Estou preso na cela que eu mesmo construi para os meus medos. Acabei não conseguindo evitar ser retido pela carne e aprisionado pelo temor de ser mais, de fugir por entre os labirintos protegidos pelos minotauros da vida. Deixei de arriscar pular da ponte com receio de molhar meus pés ou quebrar a coluna. Para falar a verdade sou um covarde declarado, pronto a repelir todos os indícios de braveza presente em meu espírito. Devo intentar crescer e ir além da calçada de minha casa. Voar.

segunda-feira, 7 de julho de 2008


Mire meus olhos! O que vês? Felicidade? Tristeza? Apatia? Sou senhor da ataraxia melancólico. Vejam os gansos fenomenais que andam à minha frente. Observem o andar pretensioso, a arrogância no comportamento. O que eles são? Gansos. Onde ganso acaba? Hum... Sabem a resposta, eu sei. Sou inferior? Sou superior, eu não sei. Moro no Subsolo de Dostoiévsky? Moro. Digo, moro. Sou habitante convicto. Meu esconderijo perfeito se perfaz na terra, nada melhor que a terra, junto com os vermes, é bom, contribuo com a nutrição e a proliferação da espécie mais salutar e benéfica. Sou quem? Comida para vermes. Quem serei? Um nutriente, composto de células minúsculas que preechem o corpo odiado de um verme. Sou melhor do que os gansos? É claro, também tenho orgulho e arrogância para vender e oferecer gratuitamente àquele que requisitar. Tenho alguma coisa na vida? Não, nem o meu corpo desgastado, ele integra a alimentação de um simplório ser, ele apetece? Apetece, pelo menos os vermes e outros repugnáveis seres terrenos.

Perto do Abismo.


Cheguei bem perto do precipício. Meus pés não conseguiram seguir em frente. Um medo angustiante dominava-me. Desejei tanto um mundo e ao final não o alcancei. Desejo tão simples, mas ele se afastou de mim mesmo apinhado pela desesperança. Por que não engajei coragem e enfrentei as minhas maiores covardias? Eu poderia estar em algum mundo, atualmente me encontro divagando no vácuo, sem ar, sem terra, apenas um vazio dilacerante, um eterno estado sorumbático de infindável tortura. Olho para as estrelas, admiro-me com o luzir destes astros, até esqueço da existência, das obrigações, me recibilo ante a beleza inalcançavel pela reles e miserável torpeza de um pobre fâmulo, preso às muralhas de seu fado. Não encontro consolo em nada. Não encontro um mundo em nada. Refugio-me nos livros, viajo e conheço inúmeros mundos, todavia menos o meu.