
É difícil sair da Garrafa após tanto tempo dentro dela. Conheço o seu interior com perfeição. A Garrafa é transparente. De dentro dá de ver a luz de fora, no entanto, dentro não se consegue respirar o ar que se avoluma pelas bordas externas. O prazer foi conseqüência de uma vida a observar, não tive varandas e nem flores nelas, tive apenas um vidro meio opaco me separando da realidade. Quis. Ah como quis transpassá-los, tentei, esmurrei as paredes com as forças que jaziam em meu corpo fenecido e não adiantou. Sem noção de quando eu poderia sair, fiquei. Desiludido ao som do sino... O badalar só revelava minha desesperança, ouvia com vigor meu próprio clamor. Contorcia-me. Amoldava-me ao formato da Garrafa. Ela me cerrava, eu a obedecia. Inquestionável situação. Ausência de coragem ou excesso dela? Não sei. Fiquei lá, a esperar... Esperar... Esperar alguma alma desafortunada vir me salvar ou esperar minha alma desfavorecida acordar da dormência com a qual me conformei.

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