quarta-feira, 30 de abril de 2008

Mademoisèlle Claudia.


A eternidade tem o preço alto da permanência inabalada. O corpo não envelhece, inalterável desenvolve exclusivamente a mentalidade, sendo insuportável a continuação de uma vida, não poder usufruir dos instantes que somente o tempo fornece ao homem mortal. Por um período o imortal delicia-se diante da sua condição até defrontar-se com a esterilidade do prazer provindo do eterno. A limitação fica patente, o existir insossa e os temperos inafastáveis perdem-se. Enfrenta-se uma existência diferente, nada muda, ou começa-se a vê-la fora do imaginário poético da mortalidade frágil. Todos somos uma Claudia, analisamos a imutabilidade de uma vida, renhimos variar e tropeçamos nos obstáculos postos em nossas trilhas. A mortalidade, destarte, não distancia-se da imortalidade, exceto na duração, o desespero subsiste enquanto houver sopro vital a ser consumido.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Federação Brasileira: Uma Utopia.


A Constituição de 1988 proclama o nome "República Federativa do Brasil", eis a forma de organização estatal, no entanto, percebemos que a "República" talvez exista, quanto à "Federação" encontra-se controvérsias acirradas, um Estado Federativo dá liberdade aos seus membros, fato distante da realidade brasileira, os Estados componentes ficam atrelados à política administrativa da União, impossibilitados de legislar plenamente conforme a situação dos costumes e tradições regionais. A tudo dispõe a central do poder, definindo rumos que ela própria desconhece, comportamentos verdadeiramente perniciosos ao povo local são jogados no esquecimento pela legislação penal ou ambiental, o Brasil não é uma nação, porém inumeráveis nações dentro de um país, ou seja, uma diversidade que não deve ser sintetizada em leis tão incabíveis como as existentes. Os Estados Unidos da América, estes sims com os defeitos tidos, são uma real federação, a liberdade é ampla dos Estados, reafirmando a característica sem igual de cada localidade.

domingo, 13 de abril de 2008

Vestido.



Farei um vestido com a minha pele. Pegarei fitas do mais caro linho, agulhas de marca para a costura. Coserei a minha roupa, minhas saias, minhas blusas, meus sapatos, mormente meu vestido, longo vestido de alças e bordas expostas. Alta costura tenho eu, sou moço de sociedade considerada, de postura tradicional entre séculos repassada, nunca precisei de pano para as minhas vestimentas, a minha pele sempre substituiu este reles tecido de uma comunidade industrializada. Minha pele não está ao bel-prazer da poeira e outros males de um clima morno. Ela está coberta por pequenos adereços que a protegem, a cobrem de milhares e oportunos microorganismos, repulsivos.

Deus Frustrado.

Para que ser um deus se eu posso ser um humano? Para que ter infinitos poderes se eu posso tê-los limitados e seguros, longe de minha tresloucada mente? Se eu tivesse poderes ilimitados acabaria por perder o controle deles, um insano descontrolado tende a sair de si... De que me serviria não ser eu? Desejo desarrazoado o de potência elevada... Igualmente desarrazoado é o desejo de não cupidez. O equilíbrio, nem lá, nem cá, no acolá mediano, é o exato. Equilibrar-se unicamente para atingir o fim imediato e mediato de ser um humano, um humano frágil, complexo, admirável em sua espontaneidade, mal em sua preservação de ego. Anseio poderes? Anseio. Quero ser divino? Quiçá, todavia com os pés bem firmes no chão. Mentira caso falasse que não quisesse ser um deus, suprir ao extremo a minha ditatorial vontade, submeter aqueles que me injuriam a honra, humilhar os que me humilharam, pisar nos vermes como um senhor de botas grossas e de borracha. No entanto, não tenho a oportunidade de ser deus, me sacio com a humanidade em sua perversidade, fico aqui no ambiente terreno, impotente, mãos livres e agarradas à esperança de melhora, rindo de minha finitude e da comicidade circunscrita das pessoas que passeiam de fronte à minha janela.

A Menina da Garrafa.




É difícil sair da Garrafa após tanto tempo dentro dela. Conheço o seu interior com perfeição. A Garrafa é transparente. De dentro dá de ver a luz de fora, no entanto, dentro não se consegue respirar o ar que se avoluma pelas bordas externas. O prazer foi conseqüência de uma vida a observar, não tive varandas e nem flores nelas, tive apenas um vidro meio opaco me separando da realidade. Quis. Ah como quis transpassá-los, tentei, esmurrei as paredes com as forças que jaziam em meu corpo fenecido e não adiantou. Sem noção de quando eu poderia sair, fiquei. Desiludido ao som do sino... O badalar só revelava minha desesperança, ouvia com vigor meu próprio clamor. Contorcia-me. Amoldava-me ao formato da Garrafa. Ela me cerrava, eu a obedecia. Inquestionável situação. Ausência de coragem ou excesso dela? Não sei. Fiquei lá, a esperar... Esperar... Esperar alguma alma desafortunada vir me salvar ou esperar minha alma desfavorecida acordar da dormência com a qual me conformei.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Eu entendo e Não Entendo.



Eu confesso que fico emocionado quando abordo sobre o assunto "morte". Parece natural e ao mesmo tempo estranho, a morte tem sempre um significado devastador, encará-la de frente, observá-la nos olhos para muitos é inimaginável. Eu a encaro. Eu a admiro. Eu a respeito e a temo. O poderio que ela dispõe é incontestável, sou nada perante sua grandeza. Ela chega e não avisa. Bebe da vida e deixa o corpo frio, imóvel, com a única utilidade de preencher mais um buraco em um local apropriado. Ela é forte. Ela é potente. Ela me assusta quando chega de repente e dilacera toda uma existência em segundos, milésimos segundos e anos... Temo a Grande Imperatriz... Me curvo diante do seu trono e peço que alivie a dor mortal dos meus. Talvez, se houver tempo, bem como um pingo de misericórdia, faça da minha morte uma passagem indolor, ou, quem sabe, dolorosa para chegar mais adiante e levar além da chaga uma lembrança.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Doces Beijinhos.





Preciso ser beijado antes que a noite termine, pela manhã não poderei beijar, meus lábios tornam-se dormentes e frígidos. Acreditei nas flores, me perdi com as rosas e conheci os pérfidos espinhos... Cada um ficou com um pouco de sangue meu, cada beijo uma revelação de uma doença, de um câncer. Para que tantos mistérios e loucuras jogados no corpo? Para que um corpo se não há mais segredos na luz...?

terça-feira, 8 de abril de 2008



O campo florido, o aroma tépido da floresta, símbolos de sentimentos esquecidos, noites iluminadas pela escuridão eterna, onde as rochas negras se elevam imponentes entre tantas árvores, entre tantos pesadelos... Sou inebriado pela luz, pela cor diversificada do preto monótono de meus desejos inconscientes mórbidos. Sou a fina flor do jardim das flores sem cheiro, sou o menino dos olhos castanhos escuros e de uma história insípida de pranteios e ilusões. Decidi navegar pelo vermelho sangue e beber do vinho tinto das abóboras lancinantes do mercado dos coelhos saltitantes.