sábado, 20 de dezembro de 2008

Feliz.




Feliz idade a minha. Bonita agonia. Sons, barulhos, músicas da confusão excessivamente audível. Pensar. Não penso. Penso muito. Penso pouco. Bonita agonia. Estou excitado para enfrentar o mundo, as coisas, pulo da cama, calço as sandálias, tenho que andar. Andar é difícil, um pé à frente do outro, mecanismos biológicos inúteis. Andar, para quê? Para que sair daqui? O colchão é carinhoso, os lençóis confortáveis. Volto para cama. Minha bonita agonia me encanta. Estou encantado. Minha agonia. Cadê o ar?

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Quem queria ser Ana Rouge?


A moça Ana acordava todos os dias com os cabelos emaranhados, se arrumava para ir ao trabalho, vestia suas roupas coloridas e utilizava de farta maquiagem e adornos como uma boa mulher. No caminho enfrentava algumas dificuldades, porém como menina educada irrelevava a arrogância e ignorância das pessoas, aprendeu desde cedo a ser apática em diversas situações. Sempre foi uma mulher forte, nunca soube o significado da palavra desistir, embora muitos duvidassem de sua capacidade. Não a viam com naturalidade, a consideravam uma aberração desproporcional. Moça que é moça não tem o que ela tem, diziam torpemente. Ela seguia impávida a sua trilha rumo ao trabalho. Apesar de sofrer preconceitos constantes, ela sabia que ser o que era exigiria esforço, inteligência e coragem. Nos saltos se escudou, destemida foi à batalha e ingressou no mundo de mulheres que não eram mulheres. Ana era um menino de saia.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Um valor sem valor.



Supérfluo... superficialidade... casca... nada menos que nada e só o fato de qualificar como nada já é conceber um valor, então nada é alguma coisa, é um valor, é mais do que poderia ser... é mais do que o próprio sentido de nada... Nada não deve ser porque se for, será algo, prefiro o nada real, o abstrato, mas o nada. Nada... nada... nenhum... ninguém, nada... Supérfluo... superficial... Não sou todos, sou eu, sou... eu... eu... eu... alguém... um ponto... uma razão... alguma coisa... o todo... o nada...

Sem dúvida.


Quero ser uma formiga. Insignificante. Andar despercebido, quase invisível. Transitar pelos cantos inóspitos e sair firme de lá. Durar pouco, um pouco com qualidade. Frágil? Eu? Realmente sou, neste ponto me equiparo às formigas de forma excelente. Incrível! Olhando bem, talvez eu seja uma formiga, ainda visível, uma formiguinha inocente que é livre e obediente às ordens da Rainha. Visível, a característica que me apavora, poderia ser invisível, despercebido nos trânsitos urbanos, andar por aí, esquecer de mim e das coisas. Ei! Formiga não pode esquecer, tem muitas responsabilidades, originalmente uma serviçal, obediente. Que coisa! Ser uma formiga é difícil... É invisível para os seres maiores, mas aos seus pares ela é visível e até demais. Frustrante... Não posso ser formiga porque eu sou uma... Uma formiga grande e frágil. Uma formiga obesa e obediente.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Aqui.


Lembro-me do meu enterro. Todos aqueles idiotas encenavam um choro falso. Meu corpo jazia no féretro. Sentia cada centímetro da pele apodrecer com uma velocidade nunca percebida. Eis uma novidade em minha história recente, pensei que estivesse mais podre quando fluía o sangue em pulsos e realmente eu estava absolutamente certo. A podridão era desigual. Um porco sem igual ou um aglomerado de lixo em um lixão esquecido em alguma periferia de uma cidade por aí.

sábado, 26 de julho de 2008



A Boca. Beije-me quando puder, sei que nunca poderás beijar-me. Inundar-te-ei com meu sangue apodrecido pelo refugo de sentimentos.

Saia deste corpo o Demônio que habita minhas carnes. Tire deste sangue o Demônio que habita meu cérebro. Saia desta alma o Demônio que assola os meus sonhos.

A Visão.




Eis a minha vida. Olhem! O gosto é adocicado e ocasiona torpor ou um certo furor naquele que a observa, então tome cuidado. Olhe, mas não sorva a essência dinâmica da imagem. Minha vitalidade não suporta espetáculo, prefere o aconchego de um bom sanatório. Os gritos doentios que explodem em seus ouvidos são apenas uma espontaneidade de sentimentos, tento não disfarçar a pequenez de ser um humano. Um humano abraçado pela treva, escuridão do canto de um manicômio apropinqüado, vizinho de meus genitores, na terra dos ditos normais, mendigos da concreta miserabilidade. O vermelho intenso revela a inexistência de intensidade que perfaz as estradas vitais das trilhas que me levaram a percorrer. Veja este vermelho-escuro, os pingos que se espalham pelas margens! Não! Não são unicamente uma cor refratada, porém também um ponto de conflito complexo às mentes de pérfido rebotalho.

A Carne de Minha Vida.



Quando o primeiro prego atravessou minha carne senti que a vida perdeu a entonação dada pela pueril esperança de não perceber a dor. O prego cruzou os tecidos. Aos poucos abriu caminho até chegar aos ossos. Meu sangue brotou como a água brota da terra, apta a fertilizar solos estéreis. Os impactos faziam de mim um ser frágil. Cai de joelhos não suportando a crueldade com que eram aplicadas as batidas do martelo. Meu algoz não parava a nenhum momento, a raiva nutria a crueldade de seus atos. Os calafrios corriam pelo meu corpo em relances intermináveis enquanto eu suplicava, chorava e lamentava minha sina miserável. Ali, cerrado entre a muralha de meu calabouço, não chegava nem a pensar, estava entregue à materialidade provocada pelo sofrimento. O prego incauto rasgava a carne com ferocidade. Meus músculos se misturavam com as partículas de ferro que se soltavam das laterais do objeto. O martelo batia, o prego perfurava. O prego perfurava, minhas energias deixavam-me, lutar não seria mais possível, deixei-me embalar ao som das batidas, ao bailar do meu sangue.

Agonia.


Minha respiração está devagar. Ouço cada sopro feito pelo pulmão já desgastado. Estou preso na cela que eu mesmo construi para os meus medos. Acabei não conseguindo evitar ser retido pela carne e aprisionado pelo temor de ser mais, de fugir por entre os labirintos protegidos pelos minotauros da vida. Deixei de arriscar pular da ponte com receio de molhar meus pés ou quebrar a coluna. Para falar a verdade sou um covarde declarado, pronto a repelir todos os indícios de braveza presente em meu espírito. Devo intentar crescer e ir além da calçada de minha casa. Voar.

segunda-feira, 7 de julho de 2008


Mire meus olhos! O que vês? Felicidade? Tristeza? Apatia? Sou senhor da ataraxia melancólico. Vejam os gansos fenomenais que andam à minha frente. Observem o andar pretensioso, a arrogância no comportamento. O que eles são? Gansos. Onde ganso acaba? Hum... Sabem a resposta, eu sei. Sou inferior? Sou superior, eu não sei. Moro no Subsolo de Dostoiévsky? Moro. Digo, moro. Sou habitante convicto. Meu esconderijo perfeito se perfaz na terra, nada melhor que a terra, junto com os vermes, é bom, contribuo com a nutrição e a proliferação da espécie mais salutar e benéfica. Sou quem? Comida para vermes. Quem serei? Um nutriente, composto de células minúsculas que preechem o corpo odiado de um verme. Sou melhor do que os gansos? É claro, também tenho orgulho e arrogância para vender e oferecer gratuitamente àquele que requisitar. Tenho alguma coisa na vida? Não, nem o meu corpo desgastado, ele integra a alimentação de um simplório ser, ele apetece? Apetece, pelo menos os vermes e outros repugnáveis seres terrenos.

Perto do Abismo.


Cheguei bem perto do precipício. Meus pés não conseguiram seguir em frente. Um medo angustiante dominava-me. Desejei tanto um mundo e ao final não o alcancei. Desejo tão simples, mas ele se afastou de mim mesmo apinhado pela desesperança. Por que não engajei coragem e enfrentei as minhas maiores covardias? Eu poderia estar em algum mundo, atualmente me encontro divagando no vácuo, sem ar, sem terra, apenas um vazio dilacerante, um eterno estado sorumbático de infindável tortura. Olho para as estrelas, admiro-me com o luzir destes astros, até esqueço da existência, das obrigações, me recibilo ante a beleza inalcançavel pela reles e miserável torpeza de um pobre fâmulo, preso às muralhas de seu fado. Não encontro consolo em nada. Não encontro um mundo em nada. Refugio-me nos livros, viajo e conheço inúmeros mundos, todavia menos o meu.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Casinhas de Pão.



Quis ter uma Casinha de Pão, doce ilusão de um moço. Quis correr em volta dela de braços abertos tentando usufruir toda a liberdade possível a um ser humano condenado a existir, sentir o vento bater minha face e esquecer o frio que ele causa ao corpo decrépito... Meus pés descalços pisando na grama verde com a mesma petulância que me pisam, esmagando cada detalhe ínfimo de uma matéria degradada pelo tempo lançado ao acaso dos pensamentos soltos. Se me cortarem os pés eu sangro, sangro ousando aproveitar cada instante destemidamente porque se parar para se arrepender deixarei de viver o instante de sofreguidão e cairei em uma reflexão inútil às mentes libertas. Viver dolorosamente, talvez. Viver, correr em volta da Casinha de Pão e afastar os fungos insolentes que a todo custo objetivam a demolição de princípios dos ingredientes constituintes da massa apetitosa. Quis provar do Pão, mudei e resolvi correr. Vamos correr para esquecer, correr para correr dos desnudos algozes do prazer verdadeiro. Correr e refugiar-se na Casinha sem tocá-la, sem desfigurá-la de sua essência. Quis correr. Me amputaram as pernas, eu me arrastei e pintei de vermelho o caminho traçado, mostrei a outrens que fui feito de carne e sou um, único no mundo singular da nuvens sombrias do cúmulo da treva.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Mademoisèlle Claudia.


A eternidade tem o preço alto da permanência inabalada. O corpo não envelhece, inalterável desenvolve exclusivamente a mentalidade, sendo insuportável a continuação de uma vida, não poder usufruir dos instantes que somente o tempo fornece ao homem mortal. Por um período o imortal delicia-se diante da sua condição até defrontar-se com a esterilidade do prazer provindo do eterno. A limitação fica patente, o existir insossa e os temperos inafastáveis perdem-se. Enfrenta-se uma existência diferente, nada muda, ou começa-se a vê-la fora do imaginário poético da mortalidade frágil. Todos somos uma Claudia, analisamos a imutabilidade de uma vida, renhimos variar e tropeçamos nos obstáculos postos em nossas trilhas. A mortalidade, destarte, não distancia-se da imortalidade, exceto na duração, o desespero subsiste enquanto houver sopro vital a ser consumido.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Federação Brasileira: Uma Utopia.


A Constituição de 1988 proclama o nome "República Federativa do Brasil", eis a forma de organização estatal, no entanto, percebemos que a "República" talvez exista, quanto à "Federação" encontra-se controvérsias acirradas, um Estado Federativo dá liberdade aos seus membros, fato distante da realidade brasileira, os Estados componentes ficam atrelados à política administrativa da União, impossibilitados de legislar plenamente conforme a situação dos costumes e tradições regionais. A tudo dispõe a central do poder, definindo rumos que ela própria desconhece, comportamentos verdadeiramente perniciosos ao povo local são jogados no esquecimento pela legislação penal ou ambiental, o Brasil não é uma nação, porém inumeráveis nações dentro de um país, ou seja, uma diversidade que não deve ser sintetizada em leis tão incabíveis como as existentes. Os Estados Unidos da América, estes sims com os defeitos tidos, são uma real federação, a liberdade é ampla dos Estados, reafirmando a característica sem igual de cada localidade.

domingo, 13 de abril de 2008

Vestido.



Farei um vestido com a minha pele. Pegarei fitas do mais caro linho, agulhas de marca para a costura. Coserei a minha roupa, minhas saias, minhas blusas, meus sapatos, mormente meu vestido, longo vestido de alças e bordas expostas. Alta costura tenho eu, sou moço de sociedade considerada, de postura tradicional entre séculos repassada, nunca precisei de pano para as minhas vestimentas, a minha pele sempre substituiu este reles tecido de uma comunidade industrializada. Minha pele não está ao bel-prazer da poeira e outros males de um clima morno. Ela está coberta por pequenos adereços que a protegem, a cobrem de milhares e oportunos microorganismos, repulsivos.

Deus Frustrado.

Para que ser um deus se eu posso ser um humano? Para que ter infinitos poderes se eu posso tê-los limitados e seguros, longe de minha tresloucada mente? Se eu tivesse poderes ilimitados acabaria por perder o controle deles, um insano descontrolado tende a sair de si... De que me serviria não ser eu? Desejo desarrazoado o de potência elevada... Igualmente desarrazoado é o desejo de não cupidez. O equilíbrio, nem lá, nem cá, no acolá mediano, é o exato. Equilibrar-se unicamente para atingir o fim imediato e mediato de ser um humano, um humano frágil, complexo, admirável em sua espontaneidade, mal em sua preservação de ego. Anseio poderes? Anseio. Quero ser divino? Quiçá, todavia com os pés bem firmes no chão. Mentira caso falasse que não quisesse ser um deus, suprir ao extremo a minha ditatorial vontade, submeter aqueles que me injuriam a honra, humilhar os que me humilharam, pisar nos vermes como um senhor de botas grossas e de borracha. No entanto, não tenho a oportunidade de ser deus, me sacio com a humanidade em sua perversidade, fico aqui no ambiente terreno, impotente, mãos livres e agarradas à esperança de melhora, rindo de minha finitude e da comicidade circunscrita das pessoas que passeiam de fronte à minha janela.

A Menina da Garrafa.




É difícil sair da Garrafa após tanto tempo dentro dela. Conheço o seu interior com perfeição. A Garrafa é transparente. De dentro dá de ver a luz de fora, no entanto, dentro não se consegue respirar o ar que se avoluma pelas bordas externas. O prazer foi conseqüência de uma vida a observar, não tive varandas e nem flores nelas, tive apenas um vidro meio opaco me separando da realidade. Quis. Ah como quis transpassá-los, tentei, esmurrei as paredes com as forças que jaziam em meu corpo fenecido e não adiantou. Sem noção de quando eu poderia sair, fiquei. Desiludido ao som do sino... O badalar só revelava minha desesperança, ouvia com vigor meu próprio clamor. Contorcia-me. Amoldava-me ao formato da Garrafa. Ela me cerrava, eu a obedecia. Inquestionável situação. Ausência de coragem ou excesso dela? Não sei. Fiquei lá, a esperar... Esperar... Esperar alguma alma desafortunada vir me salvar ou esperar minha alma desfavorecida acordar da dormência com a qual me conformei.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Eu entendo e Não Entendo.



Eu confesso que fico emocionado quando abordo sobre o assunto "morte". Parece natural e ao mesmo tempo estranho, a morte tem sempre um significado devastador, encará-la de frente, observá-la nos olhos para muitos é inimaginável. Eu a encaro. Eu a admiro. Eu a respeito e a temo. O poderio que ela dispõe é incontestável, sou nada perante sua grandeza. Ela chega e não avisa. Bebe da vida e deixa o corpo frio, imóvel, com a única utilidade de preencher mais um buraco em um local apropriado. Ela é forte. Ela é potente. Ela me assusta quando chega de repente e dilacera toda uma existência em segundos, milésimos segundos e anos... Temo a Grande Imperatriz... Me curvo diante do seu trono e peço que alivie a dor mortal dos meus. Talvez, se houver tempo, bem como um pingo de misericórdia, faça da minha morte uma passagem indolor, ou, quem sabe, dolorosa para chegar mais adiante e levar além da chaga uma lembrança.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Doces Beijinhos.





Preciso ser beijado antes que a noite termine, pela manhã não poderei beijar, meus lábios tornam-se dormentes e frígidos. Acreditei nas flores, me perdi com as rosas e conheci os pérfidos espinhos... Cada um ficou com um pouco de sangue meu, cada beijo uma revelação de uma doença, de um câncer. Para que tantos mistérios e loucuras jogados no corpo? Para que um corpo se não há mais segredos na luz...?

terça-feira, 8 de abril de 2008



O campo florido, o aroma tépido da floresta, símbolos de sentimentos esquecidos, noites iluminadas pela escuridão eterna, onde as rochas negras se elevam imponentes entre tantas árvores, entre tantos pesadelos... Sou inebriado pela luz, pela cor diversificada do preto monótono de meus desejos inconscientes mórbidos. Sou a fina flor do jardim das flores sem cheiro, sou o menino dos olhos castanhos escuros e de uma história insípida de pranteios e ilusões. Decidi navegar pelo vermelho sangue e beber do vinho tinto das abóboras lancinantes do mercado dos coelhos saltitantes.